Todos nós temos fome de
alimento sólido todos os dias. Fome biológica. Nosso organismo carente, a seu
modo fala, pede o socorro energético. A falência celular ou apenas o estômago
vazio apela pelo suprimento que satisfaça a desnutrição momentânea
— o que nos mantém ativos
em busca de mais alimento. A fome é este estado biológico que demanda nutrição
adequada para que se mantenha vivo o organismo.
Todavia, o apetite
emocional das pessoas não tem esta lógica. Quando constatamos uma fome de
aceitação, que acaba traçando tudo o que parece apetecível ao ego faminto,
para, de alguma maneira, tentar satisfazê-lo, nascem dinâmicas imponderáveis. O
que vemos por aí são estados de uma raça insaciavelmente faminta, sempre
gemendo por carência de amor e angustiada como indigente.
A alma sofre demais com o
isolamento. Fomos criados para uma vida relacional de afeto, preferivelmente
com toques que o simbolizem. Permanecer numa ilha sozinhos é insuportável. Pior
ainda parece ser o convívio com o próprio anonimato em meio a uma multidão de
solitários. Esse mundo sem alguma prosa de valor, aqui e ali, é um deserto
barulhento; por outro lado, não ser ninguém no terreiro da senzala é um horror.
É como viver no ostracismo, viver como exilados de aceitação, de significado.
Deixe-me perguntar: onde
você tem buscado nutrição para a sua alma? Só não venha com conversa fiada. O
que tem matado a sua fome de ser aceito (a)? Onde tem construído a sua
identidade pessoal? Em si mesmo, nos outros ou no amor incondicional de Abba?
A era glacial do amor,
prevista por Jesus, já chegou. As amizades verdadeiras são raras neste planeta,
que só se aquece pela fome das vantagens. Ainda hoje estive com uma vítima do
bilhete premiado. Estava abatidíssima. É sempre a mesma e surrada tática, mas a
ganância cega a vítima, que vê no lucro a esperteza. De algum modo, é mais uma
alma faminta de aceitação.
Desde que em solitude fui
impulsionado a considerar-me aceito por Aquele que me quer sem motivo aparente,
ainda que eu jamais o tenha querido voluntariamente; desde que me foi revelado
que o amor de Abba não é uma troca de favores e que sua vigência não tem tempo
de validade, minha alma passou por um estágio de nutrição sem precedentes.
Agora que estou começando
a comer essa papinha de bebê para a alma (mas sem esse papo furado da
reciprocidade bancária, segundo a qual precisamos corresponder à vantagem
obtida — neste caso a esmola da graça), fiquei muito feliz com a descoberta de
Gerald Coates quando disse: “Deus não está decepcionado com você, porque Ele nunca
teve ilusões a seu respeito" Que maravilha de cardápio...
Permanecer quieto no colo
amoroso do Pai é uma façanha fora de série. É o filho aceito pela graça plena
que parou de se debater no vazio da fome da alma. Nada pode ser mais
significativo do que nutrir sua personalidade com este amor destituído de
exigências, correspondências ou reciprocidades virtuosas. Lembre-se do brado de
David Seamands:”... a virtude não produz a relação com Deus. E a relação com
Ele que gera a verdadeira virtude’ Sente-se à mesa do banquete e celebre com
Abba a festa da sua adoção eterna. Pare de exigir a sua perfeição; Ele o (a)
ama sempre.
Do velho mendigo,
Pr. Glênio Fonseca Paranaguá
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